Carteira de trabalho ou de clientes?

Por vocação ou necessidade, o número de microempreendedores no Brasil cresceu mais de 1.200% na última década. O que esperar do futuro do trabalho? Em artigo exclusivo pro B IS THE NEW A, Davi Cury reflete sobre o tema.

Lembro quando tirei minha carteira de trabalho. Foi no final dos anos 90 e eu sequer tinha uma assinatura. Rabisquei então algumas opçōes no caderno da escola poucas horas antes de levar os documentos para alguma Superintendência Regional do Trabalho e Emprego no centro de São Paulo. Era um adolescente, então a assinatura ganhou traços de grafite (ou melhor, pichação). Pro bem ou pro mal, aquela interpretação gráfica do meu nome segue sendo minha assinatura até hoje. 

Se ela – a assinatura – me acompanhou ao longo dessas duas décadas, o mesmo não aconteceu com a carteira de trabalho. Atuações como PJ, trabalho no exterior e agora como sócio, fazem minha carteira parecer um queijo suiço. E eu não sou exatamente uma exceção. 

Enquanto gerações anteriores almejavam estabilidade de emprego e carteira assinada, profissionais de hoje estão cada vez mais se acostumando com a ideia de uma carreira menos linear e mais empreendedora. 

Por opção, ou por falta dela. 

Dados do IBGE mostram que o número de MEIs (Microempreendedor Individual) no Brasil cresceu cerca de 1 milhão desde o início da pandemia, chegando em setembro de 2020 próximo à marca de 11 milhões de MEIs. Isso equivale a 1/3 do número de empregos com carteira assinada no país. A título de comparação, em 2010 o Brasil tinha menos de 800 mil MEIs registradas.

É clara então a tendência de crescimento de profissionais autônomos e pequenos empreendedores. E não é uma tendência liderada pelo Brasil. Longe disso. 

Nos EUA os freelancers representam cerca de 40% de toda a força de trabalho do país, e a previsão é que cheguem a ser maioria antes de 2030! Alterações no cenário econômico nacional (e global), inovação pela tecnologia e mudanças na cultura aceleram essa transformação.

De novo: por opção ou por falta dela. Se, por um lado, o avanço da tecnologia coloca milhões de empregos em risco ao tornar obsoletos trabalhos que outrora eram fundamentais, por outro ela oferece novas oportunidades, gera conexões, facilita processos e viabiliza uma economia pautada na autonomia. 

Ainda citando o mercado norte americano, uma pesquisa feita pelo Upwork em 2017 apontou que 63% dos freelancers afirmaram ter começado a freelar por opção, e não por necessidade. O mesmo estudo demonstra que quase 65% dos entrevistados consideram mais seguro ter um portfólio de clientes do que um só empregador. Ou seja, a tal da estabilidade de emprego sendo redefinida pela cultura e pelos novos tempos. 

A imprevisibilidade de receita/faturamento é, claro, o que mais aflige os autônomos. Ainda assim, um estudo feito pela MBO Partners aponta que 3.3 milhões de freelancers norte americanos faturaram acima de US$ 100 mil em 2018, o que representa uma receita maior do que de 75% de toda a população do país.

Mas ser autônomo ou empreendedor não é um mar de rosas. Não é todo mundo que vai se adaptar aos novos modelos na velocidade necessária. E tampouco o desafio é exclusivo dos trabalhadores, já que empresas e sistema judiciário também precisam se adaptar e evoluir (vamos deixar isso para um outro artigo!). 

Mas que o futuro do trabalho é cada vez mais autônomo, isso parece inegável. E existe uma tela quase em branco para a gente desenhar como esse ecossistema amplo pode e deve funcionar.

Ah, e o que vou fazer com a minha carteira de trabalho? Bem, não sei direito, mas desconfio que ela vai, num futuro não tão distante, ganhar o mesmo status da minha carteirinha do CIC e das notas de 10 mil Cruzados (aquelas com o rosto do Carlos Chagas estampado, sabe?) que meu avô me deu quando eu era moleque…

Foto: Ana Volpe/Agência Senado

Davi Cury

Davi Cury

Partner & Head of Creative Partners

One thought to “Carteira de trabalho ou de clientes?”

  1. Ótima reflexão Davi 🙂
    Eu sempre fui PJ, mas trabalhava praticamente como CLT. Há um ano resolvi assumir meu CNPJ de vez e tentar esse novo estilo de trabalho, mais “desconstruído” e com todos os riscos desse formato mais “instável”. E até aqui tem sido uma experiência incrível. Ser livre pra escolher as pessoas e clientes que queremos, desacelerar o ritmo e se desafiar a aprender novas coisas tem se mostrado um caminho real e possível.

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